26 junho 2012


leio, na madrugada

1
Leio, na madrugada, o teu diário. O teu amor exaltado, adolescente (mas também sapiente), o teu receio de que eu me sinta só, dão-me uma confiança renovada na... Não foi propriamente o teu amor que restaurou em mim o equilíbrio, mas a confirmação (corporal) de que o amor é uma forma de respiração a dois, o amor convulsivo e cheio de sabedoria, je est un autre, a chama que irrompe de cada morte, o movimento que se desenvolve dentro do próprio caos. Ele (o teu amor agora lido em palavras escritas para eu as ler) eleva-me a regiões de ampla liberdade; e do que sinto por ti dir-te-ei que nunca a vertigem se confundiu tanto com a serenidade. «Do que te falo — escreves — não é da memória, mas da memória do falo: sangram areias.»

2
No teu diário: Será maravilhoso recordar estes dias de mar, de amor... estas noites de separação... quando a separação for completa, total, irremediável...
No meu: Será que inventas agora o amor apenas para conquistares um passado? Um pátio da saudade futura?
No teu diário: Estou só… tento adormecer, mas não posso… que fazer quando se tem medo de satisfazer um desejo… todos os desejos... de abandonar tudo… o meu quarto é vasto, mas estou só… talvez amanhã...

3
… a ternura mais generosa; a viagem pelo sangue até ao cansaço; a nua intimidade; a lúcida necessidade do delírio, da vertigem; o silêncio; o abandono vigilante. Talvez amanhã, escrevias. A memória não poderá deturpar este dia tão completo, a que nem faltou a outra face do prazer, a trágica, quando à noite em tua casa houve problemas graves por terem descoberto a nossa ligação. Andamos tão afastados uns dos outros que quando alguém se liga a alguém — as armas apontam. Eu sabia; esperava-te; «vem para minha casa.» Em tuas bocas arderam os meus rios.

4
Amor, amor. No teu corpo diurno encontro a paz de uma ilha no meio da cidade cinzenta. Na fonte de mármore onde me derramo com lúcida vertigem. Elevado ao êxtase, à mística (também.) experiência (como quem vê o amor) de: árvores coladas incendiadas esquecidas da sua autonomia solidão irremediável um mais um igual a uma libertação possível impossível nobilíssima construção de nervos bocas tensões e ossos que bebem a fonte e a água a terra e as sementes o dia e a morte. Amar-te foi um sopro: quebraste, mas o meu amor é meu — e eu dele memória e haste.

5
No teu corpo esplêndido, sóbrio, encontrei um novo sentido para o meu corpo —
uma justificação (de silêncio feita) para o meu estado de contínua explosão, rigorosa vigilância —
mas agora sou a casa onde o sol se alojou, e respiro pausadamente a aprendizagem do ofício de manter-me vivo.

6
Somos o autor um do outro? Diz o povo: O homem faz a mulher e a mulher faz o homem. A interiorização recíproca da imagem do outro, a maturação do «eu» do sujeito, a matéria-prima do casal, dizem os sábios.

7
Como quem assiste ao espectáculo de uma vida/que posso modificar por ser a minha: a intimidade, a cumplicidade de quem procura os seus limites/quem entra neste jogo (da vida contra o excesso) em que tudo se arrisca não sabe de antemão onde o fogo se excede, e destrói/e leva ao infinito o desejo, o terror, o movimento incontrolável da morte/onde já quase não podemos suportar/os pobres limites do humano.

8
De uma carta para Z (escrita à boca de cena): apenas quando se destroem, ou, pelo menos, arriscam a destruição, é possível entre os corpos a comunicação do espanto, do silêncio, do caos, do pathos, da aridez, da vertigem, da violência… apenas quando assumem o seu potencial de corrupção, loucura, transparência... mas quando nos encontrámos foi como se a nossa capacidade de explosão se tivesse detido, aterrada, perante a lucidez de quem sabe que todos os limites podem ser destruídos, e com eles a vida, a descontinuidade... e tivéssemos inventado (ou descoberto) um paraíso artificial privado. Ficção? Ou era a sensação (nitidamente partilhada) de que os nossos corpos não poderiam deixar de representar o fogo senão quando o fogo os tivesse inteiramente destruído? O medo do vício, da corrupção? Com essa carne se alimenta o cerne das tragédias.

9
No teu diário: Ficarão apenas recordações destes dias cheios de, como dizer, de excitação,.. de vertigem? em que mulher me transformei após estas... experiências? Tenho medo... mas não quero apagar a mancha dos meus passos. Não posso deixar de pensar nisto, talvez palavras tuas, o amor que só se conquista no amor insaciável… no amor que nos alimenta e nos mata se morre... mas tenho ainda mais medo do teu silêncio, dos teus longos silêncios, e do esquecimento. Enfim, salve-se a vida que for possível. Ah, se ao menos eu tivesse coragem, ou essa manha que dizem de mulheres, de romper a tua noite...

10
No meu: Como se este rosto tivesse deixado de ser o meu rosto — este rosto (o meu) deixou de ser o meu rosto. Desconheço-me. Um rosto exilado do meu justo desejo de ler o seu discurso, conhecer a tessitura consentida pelo tempo. Tal como não posso habitar o meu caminho, mas apenas viajá-lo sem profundidade, o meu rosto é um nascimento, sempre original, a que assisto: um acto de obscura violência, de obscura criação de... liberdade? Ou só: criação. No amor como na morte, no amor da morte, na morte do amor, no amor-morte, e definitivamente (isto é: agora) a plenitude é levíssima, alcalina, transparente, flexível e imatura tal como o vazio, a disponibilidade (razão da tua vida) é pesadíssima, rugosa, opaca, intensa, grávida, voluptuosa. Que irrisão!

11
Afinal: um mais um é sempre incompletamente igual a um. Fizemos disto um projecto, mas falhámos. O teu corpo (afinal pouco subtil: a arte do amor aprende-se dificilmente) e o meu corpo (afinal desfeito, «pelo banquete da inteligência», dizias) afastaram-se. Separados por uma crosta de vidro, afirmo-o com a humildade de quem tudo experimentou, e pode julgá-lo, ah mas foram anos de frescor, espanto, caos, sangue, teatro, pânico, bonomia, voo de pássaros, suspensão, indisciplina, escuridade, cristal terrível — foram anos e anos vividos em alguns dias. E sempre um hiato, uma espada entre espáduas queimadas. Procurei, na tua fonte mais funda, a minha identidade — encontrei a sombra de uma sombra.

12
Escrevi por esse tempo: Cada uma das tuas inspirações e expirações, cada um dos teus reflexos fugitivos, o influxo que te mantém autónoma neste mundo vivo, os milhões de minúsculas vidas que transportas nos teus órgãos, têm mais importância — mas não saberia medi-la — do que os conceitos do amor e do ódio, dogmas, ideologias, sistemas sob os quais aparentemente construímos a nossa vida, aí onde apenas se revela um décimo do imenso iceberg da nossa existência, a vida eléctrica, a vida química, a energia infinita da matéria trágica mas também épica que somos. Escrevendo sobre ti, Magda (e eu fazia-o no teu «diário»), é da minha condição (andrógina, hermafrodita?) que falo. É o meu falo que humildemente elevo. A humildade de quem se sabe prisioneiro eterno de uma bola de lama indestrutível, de quem se afasta da multidão para se situar na solidão...

Escreveste à margem: «Humilde, tu? Tu, quem? Grandessíssimo sacana!»


Casimiro de Brito

13 março 2012

amei em cheio/meio amei-o/meio não amei-o/arte que te abriga arte que te habita/arte que te falta arte que te imita/arte que te modela arte que te medita/arte que te mora arte que te mura/arte que te todo arte que te parte/arte que te torto ARTE QUE TE TURA/A tese segunda/Evapora em pergunta/Que entrega é tão louca/Que toda espera é pouca/Qual dos cinco mil sentidos/Está livre de mal-entendidos?/Atrasos do acaso/Cuidados/Que não quero mais/O que era para vir/Veio tarde/E essa tarde não sabe/Do que o acaso é capaz .../Hoje à noite/Lua alta/Faltei/E ninguém sentiu/A minha falta/DATILOGRAFANDO ESTE TEXTO/ler se lê nos dedos/não nos olhos/que os olhos são mais dados/a segredos/O amor, esse sufoco,/Agora há pouco era muito,/Agora, apenas um sopro/Ah, troço de louco,/Corações trocando rosas,/E socos./o mar o azul o sábado/liguei pro céu/mas dava sempre ocupado/sorte no jogo/azar no amor/de que me serve/sorte no amor/se o amor é um jogo/e o jogo não é o meu forte,/meu amor?/Tudo dito,/Nada feito,/Fito e deito/Viver denoite me fez senhor do fogo./A vocês, eu deixo o sono./O sonho, não!/Este eu mesmo carrego!/meio-dia três cores/eu disse vento/e caíram todas as flores/entre a dívida externa/e a dúvida interna/meu coração/comercial/alterna/moinho de versos/movido a vento/em noites de boémia/vai vir o dia/quando tudo que eu diga/seja poesia/noite sem sono/o cachorro late/um sonho sem dono/furo a parede branca/para que a lua entre/e confira com a que,/frouxa no meu sonho,/é maior do que a noite/primeiro frio do ano/fui feliz/se não me engano/não fosse isso/e era menos/não fosse tanto/e era quase/entre os garotos de bicicleta/o primeiro vaga-lume/de mil novecentos e oitenta e sete/a noite/me pinga uma estrela no olho/e passa/na torre da igreja/o passarinho pausa/pousa assim feito pousasse/o efeito na causa/um pouco de mão/em todo poema que ensina/quanto menor/mais do tamanho da china/entre/a água/e o chá/desaba/rocha/o maracujá/duas folhas na sandália/o outono/também quer andar/alvorada/alvoroço/troco minha alma/por um almoço/relógio parado/o ouvido ouve/o tic tac passado/cortinas de seda/o vento entra/sem pedir licença/a estrela cadente/me caiu ainda quente/na palma da mão/lua à vista/brilhavas assim/sobre Auschwitz?/lua de outono/por ti/quantos sonos/hoje ànoite/lua alta/faltei/e ninguém sentiu/minha falta/milagre de inverno/agora é ouro/a água das laranjas/coisas do vento/a rede balança/sem ninguém dentro/tarde de vento/até as árvores/querem vir para dentro/morreu o periquito/a gaiola vazia/esconde um grito/tudoclaro/ainda não era o dia/era apenas o raio/lua crescente/o escuro cresce/a estrela sente[...]

"[...]a poesia está dentro da vida, e não a vida dentro da poesia."


Paulo Leminsky

08 março 2012

Ruven Afanador




















Porque, há muito, eu erro a mão. A dose. Esqueço a receita do equilíbrio. O quanto uso das partes que brigam dentro de mim. Há muito, eu me confundo.
Porque metade não tem medo e levanta os braços, na descida da montanha-russa. Olhos abertos, enquanto outra acha melhor enfrentar a queda com as mãos na barra. Segurando forte. Espremendo os dois olhos, fechados, desde o começo do percurso.
Metade prefere brincar na beira da praia. No raso. Enquanto outra não vê problemas em pular dezenas de ondas e nadar onde a pequena bandeira vermelha, agitada pelo vento, avisa sobre o risco. Sobre o possível afogamento.
Porque, há muito, eu erro a receita do equilíbrio. Uso a parte que não deveria na hora em que não poderia. Me confundo com as metades que brigam dentro de mim.
Porque parte acelera na estrada, no momento da curva fechada. Pé direito até o fim, enquanto outra freia, bruscamente, ao ver a primeira placa. Seta torta, avisando sobre o perigo.
Metade não suporta a burrice, a pequenez, a lerdeza. Outra, sempre calada, tolera a banalidade. Engole a ignorância. Convive com a mediocridade.
Há muito, eu erro a mão. A dose. Me confundo com o que devo usar. Porque metade briga. Explode. Dedo apontado na cara, enquanto outra se recolhe, quieta, debaixo da cama. No quarto fechado. No tudo escuro.
Metade berra. Outra sussurra.
Tenho uma parte que acredita em finais felizes. Em beijo antes dos créditos, enquanto outra acha que só se ama errado.
Tenho uma metade que mente, trai, engana. Outra que só conhece a verdade.
Uma parte que precisa de calor, carinho, pés com pés. Outra que sobrevive sozinha.
Metade auto-suficiente.
Mas, há muito, eu erro a mão. A dose. Esqueço a receita do equilíbrio. Me perco.
Há dias em que uso a metade que não poderia. Dias em que me arrependo de ter usado a que não gostaria.
Porque elas brigam dentro de mim, as metades. Há algumas mais fortes. Outras ferozes. Há partes quase indomáveis.
Metades que me fazem sofrer nessa luta diária.
Não deixar que uma mate a outra.
 
 
 
Diário de um Borderliner, "Metades" de Eduardo Baszczyn