Escrevi-te. Apaguei. Voltei a escrever. Que preciso de estar contigo, ao teu lado por umas horas. Num dos textos pus "de mãos dadas". Achei ridículo, não combina nada connosco, só se fosse para um braço de ferro. Noutro, invoquei o teu silêncio e a parcimónia de palavras que tanto me exaspera como me agrada, bem como a falta de juízo, de juízo nenhum, na verdadeira acepção da palavra: as coisas são como são e tu nunca me julgas. Se dá, dá. Se não, boa noite e um queijo. Que não durávamos mais de um dia de cama e mesa, dizes tu. Tens razão e no entanto as mãos dadas, os olhos fechados e um silêncio mútuo que não julga e não cobra, que induz ao descanso como uma almofada, uma boa almofada de penas de ganso da mongólia, revestida a seda da pérsia e trazida em mãos por reluzentes escravos núbios. Um silêncio de luxo, egípcio, raríssimo entre duas criaturas de deus. Insisto na parvoíce, "Preciso de ti agora", mas sem te querer assustar, acrescento que não quero nada de sexo, nem sequer te toco. Se quiseres, nem as mãos dadas. Procuro em mim todas as palavras que possam significar exactamente o seu contrário para não me delatar e corro-me de fio a pavio, como um programa de computador, que vai rejeitando os sinónimos de tudo aquilo que não me é permitido dizer. Explico-te que não almejo qualquer traição mas sei que não me acreditas e que sabes que será sempre mais um ardil para te enfiar a mão na braguilha e ta desapertar enquanto te finges de morto, como um cão bem ensinado. Tens razão, como sempre. Vais esticar os braços pra trás , bocejar e fingir que não te interesso porque tens sono e uma vida algures, que te espera enquanto eu te empato. Escrevo mais um lugar-comum que apago de imediato, por vergonha. Não temo o efeito do calão nem da rudeza das palavras, mas envergonho-me dos lugares-comuns tipo só te quero como amigo ou prometo que vamos só conversar, oferece-me um café. Na verdade, detesto café e detesto essa pedinchice novelesca que soa a manipulação bacoca e carente: sei-te mais esperto do que isso e eu, bem melhor do que isso. Não te peço como amigo porque já o és. E os amigos conversam, mesmo quando estão calados na sua introspecção de ouro, a tal das penas de pavão vindas do tesouro de mitridates ou lá o que foi que eu disse. Então porque te chamo calada e indago por onde andas? Não que vá atrás de ti, nunca fui: sabes isso. Mas percorro todos os caminhos dentro da minha cabeça para chegar a ti. Só vou quando me chamas e é este o santo e senha entre nós. quando fazes parecer que sou eu que me ofereço, mas na verdade sou eu que te obrigo a escolher, a teres a última palavra. Porque é essa que importa, a última palavra: a que decide se vou ou fico. Se corro para ti apenas dentro de mim ou se corro para ti para que entres em mim, ainda que quase sempre num futuro adiado. Por isso não acredites quando digo que de ti só quero amizade. Um almoço numa tasca manhosa e eu a jurar por entre o prato do dia e o vinho a martelo que um dia te provarei o contrário: tu sabes bem o quê. Tendo sempre para as figuras tristes, quando me olhas de certo ângulo, mas penso que essa questão seria ultrapassável. Ainda bem que apaguei tudo, que nem um rascunho guardei do que acabei de escrever e que tu nunca lerás nada disto. Delete, delete, shut down and go to sleep. sofia vieira
nessa noite chorou por M, triste e desesperadamente, como um recém nascido, entre convulsões e um choro que não cabem no peito. chorou como já não chorava há muito tempo. chorou, como se fosse a única coisa a fazer, como se chora um morto, como se chora a vida também;
nessa noite só existiram elas dentro daquele coração, daquele quarto, naquela cama.
Vou finalmente fechar o postigo, expirar a entrada mais feliz do meu coração. É altura, José, de deixar as flores secarem, o poço ganhar a escuridão que vem ameaçando há anos.
Soltarei de vez os canários e os pardais que prendi naquela gaiola, junto ao coberto. Da mesma forma que o farei contigo – segue o teu caminho e deixa que
este pobre velho que a vida baralhou encerre os seus pulmões e procure noutra casa entradas maiores para o maior coração.
escrevo-te enquanto não amanhece a morte desperta em mim uma planta carnívora o mundo parece despedaçar-se pelos desertos do delírio pântano de lodo entre a pele da noite e a manhã espaço de penumbras e de incertezas onde podemos perder tudo e nada desejarmos ainda por isso aproveito o pouco tempo que me sobeja da noite este vácuo lento este visco dos espelhos espessa escuridão agarrada à memória debaixo da pele começa a asfixia o perigo de ter amado no mais profundo segredo das noites devorávamo-nos e um barco tremeluzia pelas cortina do quarto como um presságio nos objectos e a roupa atirada para cima das cadeiras revelam-me a pouco e pouco a desolação em que tenho vivido
é-me desconhecida a vida fora dos sonhos e dos espelhos tu brincavas com o sangue a noite cola-se-me aos gestos enquanto balbucio com dificuldade esta carta onde gostaria de deixar explicadas coisas não consigo o silêncio é o único cúmplice das palavras que mentem eu sei comemos a lucidez do asfalto mudámos de morada sempre que foi preciso recomeçar vivíamos como nómadas sem nunca nos habituarmos à cidade mas nada disto chegou para nos entendermos o tempo transformou-se num relógio de argila tudo esqueci dessas derivas e pelo corpo de nossos desencontros diluíram-se os sonhos a verdade é que nunca teria conseguido escrever-te sob o peso da luz do dia a excessiva claridade amputar-me-ia todo o desejo cegar-me-ia tentaria cicatrizar as feridas reabertas pela noite sou frágil planta nocturna e triste o sol ter-me-ia sido fatal conduzir-me-ia ao entorpecimento da memória e eu quero lembrar-me do teu rosto enquanto puder o pior é que me falta tempo sinto a manhã cada segundo mais próxima ameaçadora e cruel a luz arrastar-me-á para uma espécie de inércia inexplicável o silêncio será definitivo o sangue adormece nas veias e o desejo de permanecer arremessar-me-ia para o esquecimento sem regresso poderia até projectar um eventual regresso antes de partir tenho a certeza de que parto para sempre não haverá regresso nenhum creio que se tornaria mais fácil escrever-te de longe na deambulação por algum país cujo nome ainda não me ocorre num país com sabor a tamarindos rodeados de mar onde flores mirrassem ao entardecer e devagar a paixão nascesse durante o sono um país um pouco maior que este quarto fingiria escrever-te para te enviar a minha nova morada poderia assim queimar os dias no desejo de receber noticias inventaria mesmo desculpas plausíveis greves dos correios inexistentes terríveis epidemias catástrofes e na espera duma carta acabaria por me embebedar beber muito e esperar esperar digo tudo isto mas já não te amo
[…]
Al Berto, O Medo, três cartas da memória das índias (excerto)